Plantas Medicinais em Foz do Iguaçu, conheça o projeto
04/07/2017 - 1h12 em Saúde

Plantas Medicinais em Foz do Iguaçu, conheça o projeto

Patrícia Buche
26/01/2015 00:00hs

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Plantas medicinais em Foz do Iguaçu, conheça o projeto

 

A fitoterapia, conhecida também como tratamento vegetal, é uma técnica que surgiu há mais de 60 mil anos em ruínas do Irã. Ela consiste no uso interno ou externo de vegetais, para o tratamento de doenças, tanto in natura quanto em forma de medicamentos.

 

Os primeiros registros de fitoterápicos datam da China no período de 3.000 a.C., quando o imperador chinês catalogou 365 ervas medicinais e venenos que na época eram utilizados. No Brasil, essa utilização tem na prática indígena suas bases, influenciadas pelas tradições africana e portuguesa, as quais geraram uma vasta cultura popular.

 


Antigamente, as famílias que não tinham condições de ir ao médico recorriam às plantas medicinais para melhorar a saúde. E hoje parece que o uso de plantas voltou a fazer parte da vida das pessoas. O Brasil é um dos 14 países com grande biodiversidade e que contêm mais de 10% de todos os organismos descritos na Terra, sendo que cerca de 25% têm componentes químicos que são oriundos de plantas.

 

Assim, ao todo, existem 120 mil espécies vegetais de aplicações terapêuticas, e a OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que mais de três bilhões de pessoas em todo o mundo confiam nesse tipo de tratamento.


Por conta do alto valor das medicações, as pessoas recorrem à medicina alternativa e utilizam ervas no tratamento e cura de doenças. Desde 1978 é discutido o uso ou não dessas plantas.

 

Com a Conferência de Alma-Ata, a OMS recomendou a integração pelos estados-membros da medicina tradicional e da medicina complementar alternativa aos sistemas de saúde.

 

Segundo pesquisas, 80% das pessoas utilizam práticas tradicionais de cuidados básicos de saúde, e 85% fazem uso de plantas e de suas preparações farmacológicas. Com isso, em 1990, o Brasil instituiu a Lei nº 8.080, a partir da qual foi intensificada a iniciativa de fortalecer a fitoterapia no SUS (Sistema Único de Saúde).

 



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Mas a última medida do ciclo de políticas para a inclusão das plantas aconteceu em 2006 pela Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS (PNPICS). Assim, plantas medicinais, fitoterapia, homeopatia, medicina tradicional chinesa, acupuntura e termalismo social/crenoterapia foram incluídos no Sistema Único.

 

Segundo uma pesquisa da Nature, entre 2007 e 2012 houve um aumento de 10% nas consultas homeopáticas pelo SUS, oferecidas em mais de 400 postos no país.

 

Plantas medicinais na Itaipu



O projeto, que existe desde 2003, é composto por um horto medicinal que está localizado em uma área de 1,5 hectare dentro do Refúgio Biológico Bela Vista (RBBV) e que possui 144 espécies de plantas medicinais identificadas que servem como matrizes para a multiplicação de mudas e matéria-prima para a fabricação de drogas vegetais.



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Em 2005 foi feita uma pesquisa regional com 2.500 pessoas que responderam a um questionário para verificar o uso de plantas e quais delas eram mais utilizadas. Com isso foi possível criar um perfil regional sobre o uso dessas espécies medicinais pela população dos 29 municípios da Bacia do Paraná 3, as doenças mais frequentes, a origem do uso e o conhecimento em geral sobre o tema.

A agrônoma Liziane Kadine Pires, que é uma das responsáveis pelo programa, diz que no início “foi feito um trabalho intenso de implantação nas hortas escolares” para incentivar o cultivo dessas plantas. Também ressaltou a importância de na época capacitar profissionais da área da saúde. “Uma coisa é conhecimento popular, que sua avó ensinou pra sua mãe que chá disso é bom pra isso, mas outra coisa é ter um profissional que entenda do assunto e possa receitar esse tipo de medicamento”.

 

Assim, por meio do projeto, foram promovidos cursos para capacitar os profissionais e dar uma maior segurança na hora de consumir as plantas medicinais.



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Desde que o projeto iniciou já são mais de nove mil pessoas que participaram desses cursos sobre a utilização correta, segurança alimentar e reaproveitamento das plantas medicinais, além de noções de higiene e saneamento básico. Também profissionais da saúde (médicos, dentistas e nutricionistas), sendo esses mais de 1.300 formados e que agora podem diagnosticar e prescrever medicamentos fitoterápicos para pacientes do SUS.

 

Agricultores também participaram do programa e aprenderam sobre o cultivo e beneficiamento de plantas medicinais, assim podendo produzir mudas de boa qualidade e ajudar a suprir as necessidades das prefeituras e laboratórios.



Produção


O ervanário, criado em 2005 dentro do Refúgio Bela Vista, possui um viveiro medicinal com cerca de 90 espécies de plantas que são produzidas e doadas para agricultores, universidades e comunidades em torno do RBBV. A produção é orgânica, já que, como explica a agrônoma Liziane: “Se eu tô produzindo uma planta que é pra ser um remédio, não se utiliza um agrotóxico”. Assim todas elas são utilizadas como chá, e a capacidade de produção mensal é de sete mil mudas de 85 espécies.


Distribuição


No início dos trabalhos, as plantas, ao saírem do ervanário, iam para a Itaipu. Hoje em dia elas são fornecidas, sem custos, para os postos de saúde do SUS. Os fitoterápicos atendem a 20 unidades de saúde de Foz do Iguaçu e região com os programas do Hiperdia, Combate ao Tabagismo, Odontologia e Clínica Geral. Desde 2007, 1.650.700 quilos de plantas desidratadas foram fornecidos pelo projeto.


Também por meio do programa, cerca de 130 famílias de indígenas, assentados da reforma agrária, ribeirinhos e pescadores amadores são beneficiados. Já são mais de 273.931 mudas doadas e que servem para a implantação de áreas produtivas, hortas e trabalhos científicos. Mas “nossa prioridade são as unidades básicas de saúde”, ressalta Liziane ao falar da principal finalidade dessas mudas. Ela diz ainda que por conta disso não entregam as plantas para profissionais que atendem em consultório particular.


O programa já chegou com sucesso a Toledo, Vera Cruz, Missal, Santa Terezinha, Ramilândia, Matelândia, entre outros municípios da região. A distribuição é feita toda primeira terça-feira do mês, a partir das 14 horas, na portaria da Vila C. As mudas também são fornecidas para a comunidade de Foz do Iguaçu.


O ervanário ainda distribui para escolas, universidades, Colégio Agrícola e agricultores, desde que os mesmos encaminhem um ofício por e-mail solicitando receber essas mudas. Lembrando que nada é vendido, todas as mudas são doadas para a comunidade, e os kits – que contêm 18 tipos de plantas medicinais – são distribuídos para postos de saúde de Foz e também de outros municípios que solicitam o recebimento. “Os profissionais de saúde de outros municípios podem ligar e pedir kits [mudas secas], que serão separados e entregues a eles.”



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Projeto Arranjo Produtivo Local


Em 2006, a Dra. Christiane Magdalena Lopes Pereira implantou um projeto piloto na Unidade de Estratégia de Família do Ouro Verde. Devido aos bons resultados do tratamento e adesão dos pacientes, a prefeitura, por meio de um edital lançado pelo Ministério da Saúde, institucionalizou um projeto que visa à distribuição das plantas medicinais nos postos de saúde e prescrição em pacientes hipertensos, diabéticos e na saúde mental (ansiedade e depressão).


O edital escolheu 12 municípios do país para o desenvolvimento desse projeto, e Foz do Iguaçu foi uma das três cidades do Paraná escolhidas. Portanto, desde 2012 existe o Projeto Arranjo Produtivo Local (APL), que é coordenado pela médica Christiane.

A doutora é especialista em plantas medicinais desde 2006 e, como coordenadora, trabalha com o uso de plantas medicinais no SUS. “Eu sempre trabalhei com plantas, e a eficácia sempre foi comprovada”, garante a médica, que não teve resistência em se especializar na área de fitoterápicos.

O projeto contempla desde o cultivo das plantas, passando por todas as fases, até chegar à capacitação dos profissionais para prescreverem as plantas medicinais aos pacientes do SUS. Os produtos são em forma de chás, formulações fitoterápicas industrializadas, comprimidos e fórmulas manipuladas.



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O APL finaliza em dezembro, e a coordenadora espera que eles consigam renová-lo em 2015, participando de novo edital, para quem sabe num futuro próximo transformar o projeto em um programa e pôr em prática os estudos e experiências sobre a fitoterapia.


Entendendo o uso dessas plantas


Infelizmente pelo conhecimento popular de que chá cura tudo e não faz mal nenhum, as pessoas o tomam sem nenhuma preocupação. Todavia para entender melhor o uso dessas plantas e seus efeitos é necessário recorrer a um especialista no assunto.

 

A médica Christiane Pereira explica qual a diferença entre um medicamento fitoterápico e um medicamento químico. “A fitoterapia visa o tratamento do doente e não da doença, ou seja, um medicamento químico é usado em geral para determinada doença; e a planta, por possuir diversos princípios ativos e também com a energia do paciente, visa a cura do indivíduo”.


Outro fato importante, segundo a médica, é que dificilmente um tratamento com o uso de plantas medicinais causará efeito colateral no paciente, já que o tratamento é mais suave e natural. Mas quem acredita que o chazinho pode substituir o remédio de farmácia, saiba que isso não é verdade. “Olha, o chá não substitui, ele acompanha o tratamento e, muitas vezes, tem efeito complementar”, explica a doutora, que lembra que cada doença vai reagir de uma forma.

 

Todavia o resultado é sempre positivo, porque a planta medicinal, como opção terapêutica, permite acrescentá-la ao tratamento convencional, de forma mais natural, porém sempre necessita de acompanhamento por um profissional especialista no assunto. “É muito mais fácil tratar com uma planta medicinal do que um remédio químico”, frisa.


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Christiane alerta sobre os perigos da automedicação, que até mesmo com plantas medicinais pode prejudicar a saúde, pois o uso inadequado é capaz de atingir órgãos importantes como o fígado e os rins.

 

“Sempre indicamos aos pacientes a procurar a orientação de um profissional de saúde com conhecimento em plantas medicinais.” Outro fator importante e que diferencia um medicamento fitoterápico de um químico é que o tratamento com plantas medicinais é mais indicado para doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, doenças respiratórias, digestivas e saúde mental. Já a medicação tradicional é indicada para doenças de início súbito, doenças agudas.


Fique atento


• A planta medicinal pode ser usada em crianças acima de 5 até 12 anos, utilizando um terço da dose;

 

• Muitas mães dão chazinho para os bebês, e isso não deve ser feito, pois o aleitamento materno é exclusivo até o sexto mês de vida. Após essa idade deve ser dado com muito cuidado, por exemplo, no caso do chá de poejo, que dependendo da dosagem poderá ser tóxico à criança;

 

• Não precisa parar o tratamento convencional químico se iniciar o tratamento fitoterápico, pois um complementa o outro;

 

• O ideal é tomar o chá morno e ingeri-lo no momento em que foi feito, para não alterar a quantidade de princípio ativo;

 

• O boldo é um chá que foge à regra – o ideal é ingeri-lo frio, pois conseguiu-se retirar o seu princípio ativo com água fria, diferentemente das outras plantas medicinais que necessitam de água quente;

 

• A planta pode ser usada como alimento (tempero) e também tem a função de um tratamento;

 

• A erva do chimarrão (erva-mate) é uma planta medicinal, não sendo recomendado misturá-la com outras ervas na cuia, pois seu efeito é estimulante e nos casos de hipertensão arterial pode prejudicar o tratamento. O ideal seria usar plantas mais sedativas como a erva-cidreira, melissa e folha de maracujá;

 

• O xarope caseiro é feito com planta medicinal e açúcar, portanto é contraindicado seu uso por pacientes diabéticos. Ele pode ser armazenado na geladeira para conservar seus efeitos ou utilizar cravo e canela como conservantes naturais;

 

• E o mais importante, nunca comece um tratamento com plantas medicinais sem antes consultar um especialista no assunto.

 

 

 
 
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